Marcos Bulhões

Guarde seu desfibrilador

Uma das imagens mais marcantes da minha infância é a de um médico aplicando choques seguidos no tórax do meu pai em uma sala de UTI. Aquela imagem trágica e icônica jamais saiu de minha memória, o nome do equipamento também não…

“Desfibrilador” um equipamento eletrônico cuja função é reverter um quadro de fibrilação auricular ou ventricular. O equipamento responsável por trazer a vida alguém que acaba de morrer.

Com o passar dos anos percebi que também temos o nosso desfibrilador particular, aquele instinto insistente de lutar por coisas ou causas perdidas. Aplicamos tempo, esforço e insistência atrás de um curso que já foi trancado diversas vezes, de um relacionamento que já atou e desatou tantas outras, atrás de sonhos e objetivos que sempre se distanciam de nós. É totalmente válido lutar e não desistir dos sonhos, todavia há sonhos que não são para nós, e insistir nisso é perca, tanto de tempo quanto de energia, energia essa chamada emoção, sentimento responsável por manter o desfibrilador funcionando.

Após seguidas tentativas sem sucesso, aquele médico guardou seu equipamento, não porque a vida do meu pai não valesse a pena, mas porque já não havia mais nada a ser feito. Há momentos que desistir é necessário, não porque você ame menos aquela pessoa, ou que não tenha capacidade para tal formação, mas porque o tribunal chamado consciência está em paz! Guarde seu desfibrilador, e, não desista… de um dia ter desistido. Afinal após guarda-lo você terá mãos livres para alcançar coisas maiores e vivas.

Marcos Bulhões