Jey Leonardo

Foi amor e continuaria sendo a lembrança disso

E aqueles dois corações eram cheios. Aqueles corações, em verdade, transbordavam. De estufar as costelas. De doer agudo por dentro. Era o amor verdadeiro. O amor pleno que não se repete, que o destino, o acaso, ou seja lá quem é o responsável pelas ironias da vida, joga no mundo como dados e nos faz procurar incessantes e incertos.

Aqueles dois o encontraram. Aqueles dois se encontraram e logo souberam que era do outro aquele tanto de amor guardado e esperado.
Aqueles dois corações eram imensamente tão cheios.

Há uma espécie de sentimento rara e eles a acharam. Como mantê-la é que não sabiam. Há uma incomum chance de ser feliz e eles a agarraram. Como mantê-la é que não sabiam.

Pobres eram aqueles dois afoitos, que juraram remar juntos, mas sentaram de lados opostos no barco. Pobres dos dois corações imaturos, que nunca comeram doce e agora se lambuzavam. Pobres daqueles dois enamorados, deitados sobre flores com as narinas entupidas. Pobre do grande amor ideal que caiu em mãos pequenas e inseguras.

Era amor e eles sabiam. Era amor e eles sentiam. Mas que quadro haveriam de pintar com a verdade das cores?! O que mais poderiam enxergar com tanta beleza saltando-lhes dos olhos?! O que fazer com aquela sinergia pululante das almas?! Não sabiam o que era sinergia. Não sabiam o que era pululante. Muito menos ainda conheciam suas almas.

Fizeram, então, o que podem fazer aqueles que não sabem fazer o que devem. Desistiram.
A partir de um instante, preferiram desistir a ver o amor morrer entre seus desamparos. Não culpemos os amantes que puderam amar, mas não souberam. Foi sob a incoerente visão, concebida do alto de suas inexperiências, que optaram por manter o amor sincero em algum lugar seguro do passado, a lutar a vida inteira por algo que, um dia já sem tempo, se mostrasse fracassado.

Foi amor e continuaria sendo a lembrança disso. Porque se não era, não deixaram que se provasse. Assim engaram e venceram o tempo. Assim foi o jeito que de se eternizar encontraram. Assim aqueles dois corações, ainda que separados, continuariam cheios. Mais do que do olhar um do outro, precisavam estar cheios. E transbordar.

Desistiram. E amavam.

Eden Picão