Jey Leonardo

E tudo que sai de mim, um dia há de voltar

E tudo que por desejo, descuido ou espasmo vital saia de mim, um dia há de voltar
Pode ser que mais forte ou sob outras cores
Talvez até disfarçado em outros fatores
Mas voltará
A vida sempre se fez de um eterno retorno
E tudo, como por não ter outra saída, à sua gênese retornará
A mim volta aquilo que expurguei; aquilo que eu fui sequer por um instante; os lugares por onde estive e as pessoas que visitei
Tudo, por mais que demore, acaba voltando à minha soleira
E não bate
Escancara a porta e toma os assentos que já conhece em mim
Eu mesmo voltei algumas inúmeras, incontáveis e não esgotadas vezes aos mesmos sentidos
Mesmo quando os evitei, mesmo quando não os quis, mesmo quando, ao meu ver, era impossível sentí-los
Eu voltei e eles eram eles mesmos.
Quando fui ânsia, me voltou o anseio
Quando fui ódio, ele próprio me apertou a traquéia
Quando fui esperança, a mim também esperaram
Quando fui doce, a vida se açucarou
Quando, e somente quando, fui amor, ainda que sem recíproca, ainda que só ao meu é que eu pude tê-lo
Volta
Eu voltei aos dias que já tive
Que nunca são o passado, mas me ultrapassam na estrada da vida e adormecem em qualquer dessas curvas à minha espera
E eu hei de chegar
E eles haverão de em mim encostar
Uma volta não agendada, mas certeira como as ondas de um mar calmo suportarão a tempestade veraneia
Volta
Volta
Volta
Seja por rotação, translação ou sina
Volta
E se tudo que vai, qualquer dia volta, então deixarei por aí o que de melhor tiver em mim, pra que sejam tenros os retornos inevitáveis.

Eden Picão