Jey Leonardo

É bonito ser imperfeito, desde que você assuma ser o que é

Como se pode viver uma vida inteira e não ser nada daquilo que realmente se é? Como conseguir fingir tão bem, melhor do que qualquer poeta fingidor, dores que nunca foram suas? Mentimos para nós mesmos. Somos demônios que ainda fingem ser anjos por algum motivo de orgulho e arrogância que não se pode entender. E não entendo. Quão belo é ser um anjo caído. E quão belo seria transformar o mundo em um Inferno de verdade ao invés desse teatro bobo e medíocre que apenas imita um inferno e que chamamos vida. Não existe vida. Só existe a Morte. A Morte gera a vida por espelhamento, assim como o vermelho só existe pelo fato de não ser azul.

Muito filosófico talvez pensar sobre essas coisas. Sobre os enganos diários que contamos todos os dias diante do espelho. Fazemos de nós coadjuvantes e aprisionamos os protagonistas em algum canto escuro e fétido da nossa própria mente. Que covardia. Somos anjos possuindo corpos e brincando de perfeição. Somos mentiras veladas, disfarces subjetivos e máscaras ambulantes com um toque de hipocrisia. Somos algo muito longe do que fomos projetados para ser. Não somos.

E talvez nesse instante, algo superior esteja nos olhando, nos observando. E nós, aqui, criação dele, não merecemos nem mesmo sua compaixão. A menos que seja um falsa e dissimulada compaixão. É a única natureza que aprendemos a entender e aceitar. Somos filhos da mentira, crescidos e criados sob o cunho de regras éticas e morais que nem sempre se encaixam nas situações da vida. Tudo isso, o universo, a matéria, a antimatéria, tudo isso é muito complexo para entendermos. E na tentativa de tornar didático e infantil nossa compreensão do mundo, simplificamos e tabulamos fórmulas para viver. Deixamos de ser donos de nós mesmos há muito tempo. Nem mesmo sabemos do que ser donos. Não resta quase nada…

Mas existem aquelas faíscas. Aqueles momentos em que pode ser sentido a morte correndo no sangue e nos alimentando de vida. Momentos que não percebemos quando acontecem e muito menos reproduzimos com intenção sempre que queremos. Ás vezes se trata de milissegundos, outras de minutos inteiros. Momentos em que sentimos algo por dentro queimando mais do que uma estrela. Momentos em que tudo parece fazer sentido, desde a fome na Etiópia até a seca no Nordeste; desde decapitações por religião até o assassinato de crianças. Algumas vezes, até as coisas mais macabras do mundo fazem sentido. E são momentos que devem ser respeitados. Momentos de meditação sobre nós mesmos.

Nós. Esse poço de bondade infinda, construídos com pedras de maldade. Essa compaixão líquida bebida em jarro de egoísmo. Essa humildade comestível servida em pratos de orgulho. Esse amor profundo de energia, alimentando uma máquina de indiferença. Somos rebanho de lobos com ideias modernas, fingindo não sermos mais bárbaros. Somos um bando de pássaros voando na esperança de encontrar de volta o ninho e, ao mesmo tempo, somos ovos que nunca chocaram. Somos cucos mentindo para si mesmos. Somos o juiz, o assassino, a vítima e a testemunha. Um tem que mentir. Um tem que fingir. Um tem que aceitar. Apenas um tem que falar a verdade. Escolha bem.

Noyuke Silva