Jey Leonardo

Deleite

A vontade é enorme. Do nada ser dividido pelo nada e restar tudo de que não preciso no resultado.
Queria ser um deus, para criar a destruição como quem sabe que nunca morre. E depois morrer.
Queria criar loucuras de inverno na mesma proporção de sonhos de verão.
Queria ir na igreja e barganhar o meu perdão. Fazer negócios com os demônios que tomam conta do meu coração.
Quem dera pudesse saber de tudo e com isso não morrer de inanição. Me alimentar de almas e ser um buraco negro. Perdido. Podado. Amparado. Ser um bonsai de buraco negro e ainda assim ser maior que toda a Criação.
Queria escutar todas as preces do mundo e me alimentar dessa ilusão. Queria ser pessimista e niilista, infelizmente não.
Ser quem se é como se tudo importasse. Como se a vida bastasse. Como se o cego escutasse.
Estar sem sentidos, entre escolhas de labirintos. Todas erradas. Jogo de azar.
Queria ter a força de uma planta crescendo contra a resistência do luar.
Talvez ser o sangue e beber-me num ato de canibalismo egocêntrico.
Ter orgulho da natureza pacífica em desespero turbulento.
Queria ser a lágrima de um gato devorando um rato. E, ainda, ser o rato comendo um queijo.
Belo prato metafórico da vida.
Seria bom olhar uma última vez para o céu e ser a primeira. Seria bom se o inferno fosse uma eterna ladeira. Inclinação milimétrica, 77º quase Celsius.
O papel queima e eu deveria ser a cinza das palavras não escritas. Por toda a folha branca eu poderia ser rabiscos algum dia.
Queria poder voltar o tempo e dobrá-lo com as mãos sangrando e o suor correndo na testa.
Queria mergulhar na luz iridescente e permanecer na mais completa escuridão.
Eu deveria escrever poemas. Escrevo apenas confusão.
Devia haver mais ordem onde mais existe razão.
Mas eu tenho razão em não ter razão.
Sou louco e louco estará seus olhos chegando aqui, ao final da tentação.
Vê os olhos de Delírio? O brilho.. A imensidão..
Quão louco se é por se deixar abater nesta sensação?
Queria eu estar lendo isso pela primeira vez e, em desespero, me atirar no abismo da provocação. Mas eu quem escrevi estas palavras. Que já não são primeiras. E já deixaram de ser contadas. Algo aqui dentro já digitou e redigitou tudo isso milhões de vezes dentro da minha cabeça.
Foram os olhos coloridos, um amarelo e outro azul.
Foram as cores da libido, cruzando de norte a sul.
Foram os olhos lidos em cada gota por se derramar
Nesse eterno delírio de se deleitar.

NoyuKe Silva