Eden Picão

Capitão de mim

Um barco segue sem remo
Ele simplesmente flutua
Solto ao prazer da maré
Embalado pela sorte do vento
Sendo somente o que é
Uma canoa sem ancoramento
Fazendo o que nasceu pra fazer
Simplesmente flutua

Estou eu à proa do barco sem rumo
Me ponho orgulhoso e bastante sortudo
O que pediria a mais de um barco
Que apesar dos buracos,
Da falta de bote
De um punhado de ratos
Maravilhosamente flutua

Um barco na correnteza marinha
De velas discretamente cerradas
Sigo a singela cadência da vida
Sem pressa na rota comprida
Não me afobo, ele não se engana
Porque é barco
E simplesmente flutua

Há outros que passam apressados
Gigantes levando centeio ou aço
Alguns com dois, três bêbados de lastro
Que apesar dos anzóis, estão sem pescado
Outros tantos apitam e oferecem ajuda
Como se em mim vissem algo de errado
Mas não há
Este é um barco
E simplesmente flutua

Às vezes faz falta um porto
Às vezes faz falta um cais
Quando o tempo fecha um pouco
Quando o vento sopra demais
Às vezes é chuva inesperada
E minha pequena cabine encharcada
Às vezes é trovão que assusta
Mas com pouco tudo se ajusta
E muito embora pesado,
No mar faz-se pluma
Não há fardo para o barco
Que simplesmente flutua

Em inércia na beirada do tempo
Balançando preguiçoso ao relento
Confundo-me sobre o barco e eu
Tenho casco e ele corpo
Minha alma é seu porão
Em seu braços, o meu timão
Seu nariz é minha proa
Sua quilha são meus pés
Há gaivotas que escarram em meu convés
Já não sei se sou madeira ou carne crua
Eu, capitão de mim
Pouco importa quem, enfim
É o barco que simplesmente flutua.

Eden Picão