Jey Leonardo

Amar é não ter medo de expor sua vulnerabilidade

Amor. É dar um beijo sabendo que está prestes a pegar uma gripe. É, mesmo tendo conhecimento dos riscos, se afogar num mar de línguas. É desconhecer distâncias e desafiar perigos. É ser surpresa de repente em dia de carência. É comprar um chocolate, mesmo, sinceramente, se esquecendo da dieta ou de alguma promessa. É esquecer problemas e atribulações e apenas estar ali, de corpo e mente. É cuidar e, principalmente, se deixar ser cuidado. É dar aberturas para que vejam seus pontos mais fracos, seus egoísmos, seus erros e seus medos. É não ter medo de ser o que se é, de se mostrar como se é. É confiar e respeitar.

Amor. É estar deitado ao lado e em um relance de olhar frutificar milhões de fotografias em apenas um instante. É se lembrar de pequenos grandes momentos (como da surpresa no dia do pedido de pré-namoro). É fazer carinho de dedos. Das mãos e dos pés. É querer por perto quando está frio e suportar estar perto quando muito calor. É cafuné com olhos vidrados em algum detalhe do rosto. É quantificação de pintas espalhadas pelo corpo. É sorriso de bom dia e abraço com beijo no primeiro encontro diário, mesmo de noite. É cuidar e guiar.

Amor. É recitar poesia ao ar livre, de improviso. É traçar gráficos mentais de sono e tesão. É suor e declaração. Dizer palavras estranhas e inventar algumas novas, só para encontrar melhores e mais nossos jeitos de se declarar. É sorriso largo que deixa os olhos pequenininhos. É mordida de lábio e arranhão. É costas em labirintos, marca de dente e palma de mão. É arrepio fininho que vem de repente, qual verso cadente que aparece de surpresa. E é ver o sorriso de entrega que vem depois. É pensar distraído, é sentir-se completo no meio da multidão. É sorrir na fila do pão, de fato. Mas é, também, sorrir na do banco, na da casa lotérica ou até na do hospital. É criar codinomes. É ter pensamentos carinhosos misturados com desejos quentes. É apaixonar e prazerificar.

Amor. É convidar para um passeio por se ter uma pequena esperança de vir a acontecer. É querer perto toda hora. É pensar. Sentir. Repensar. Pressentir. É transmimentar pensamentos. É achar em cada coisinha algo que lembre. É sentir o perfume no ar mesmo estando longe. É sentir o gosto e a textura quando sente saudade. É ser impulso de agarro, de afago, de delírio. É abraço por trás e beijo no pescoço. É dar nome a filhos futuros. Imaginar viagens, momentos. Inventar milhões de pretextos só para se ficar mais tempo perto. Trabalhos, estudos, compromissos solitários e horários vagos. É arquitetar planos milimétricos e ter a casa só. É conectar e multiplicar.

Amor. É projetar cenas. Apartamento em cidade grande, chuva fina caindo, gatos andando, taça de vinho, livro em mãos, corpos colados, noite estrelada, sorriso, solidão a dois, beijo, afeto, unicidade. Dia claro cinza, bom dia, trabalho, voltar cansado, sorriso, abraço, beijo, comida, cama, descanso, cafuné, sono, sonhos. Madrugada, algumas luzes, esperar cochilando, chaves, porta, ponta dos pés, despertar, passo arrastado feio zumbi, beijo, boa noite, cama, desmaio, sorriso. Casa, filha, pijama, hora de dormir, história, cobertor, beijo na testa, apagar de luzes, olhada, escorar de porta, sorriso no meio do corredor. É planejar e esboçar.

Amor. É passar madrugadas de insônia escrevendo. Imaginando futuros. Fazendo versos. Rabiscando muros. É visita inesperada só para saber se ainda está acordada. É tirar foto e escrever poesia de improviso. É não conseguir dormir por tanto se pensar em soluções para quaisquer problemas. Mas é também não conseguir dormir por ficar lembrando de tantas coisas boas já vividas. Assim como também é não conseguir dormir por criar planos de futuros porvir. É não ter tanta amizade com Deus e, mesmo assim, rezar para que se fique bem. É ter a certeza de que juntos tudo dará certo. É encontrar força no outro. Encontrar felicidade na felicidade. É buscar e desvendar.

Amor. É encontrar os olhos castanhos mais lindos que poderia se ver. É desfrutar do sorriso mais calmante, capaz de fazer esquecer qualquer coisa que esteja errada. É sentir o beijo mais gostoso e tocar na pele mais suave. É fazer de pintas constelações. É descobrir detalhes e ver neles a perfeição. É escutar a voz, em cada diferente sotaque possível e ser enfeitiçado por todos (até pelo mais estranhamente grosso). É notar mudanças de humor que se convertem em sorrisos, palavras, atos diferentes. Expressionismo abstrato. É encontrar refúgio em cada curva do corpo. É saber distinguir o perfume da sua pele no meio da multidão. É o olhar de ternura. O toque de mão. É acariciar e lembrar.

Noyuke Silva