Jey Leonardo

Agora só queria seguir em paz

Tocava o violão sentada na poltrona. Pernas cruzadas. Olhos atravessando os vidros da janela e indo se afogar no mar de ressaca. Por dentro ela também estava de ressaca, fruto do porre que a vida andou lhe dando nas últimas semanas. Algumas gotas de chuva limpavam a janela por fora. Por dentro suas lágrimas completavam o serviço.

Os acordes ecoavam no apartamento vazio. De móveis e de expectativas. Já quisera ser tanta coisa. Agora só queria ser deixada em paz. O telefone, do meio da cama, apitava uma notificação a todo instante. Ela olhava com desdém. E continuava a caminhar seus dedos nas cordas do violão.

Sempre havia sido meio melancólica. Mas aquilo dos últimos dias já estava fora dos limites. Todos tentavam ajudar. E todos eram rechaçados como quem revidasse uma ofensiva alemã.

O que os outros não viam era que o nome de tudo o que se passava com ela era purificação. Ela precisava se perder no caos íntimo, pra só depois renascer radiante. Sempre fora assim, embora ninguém nunca notasse. Agora só seria uma purificação maior. Talvez decorrente da intensidade nos últimos meses de sua jovem vida.

Mas aquilo iria passar. Entre um acorde e outro ela ia se entendendo. Entre uma onda e outra desgastando a areia ela ia se libertando. Só precisava de paz. O problema era entenderem isso. O problema era entenderem alguém que nunca de fato tentaram conhecer.

Noyuke Silva

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