Brendow H. Godoi

A vida é um boxeador mexicano te jogando nas cordas do ringue

No céu azul esquálido, nenhuma nuvem sequer. Um céu liso, denso. O sol invadia diretamente o Uno 95 no semáforo fechado. Ele tentava se refrescar de alguma forma. Agitava compulsivamente o uniforme desbotado da firma. O suor lhe escorria pelo pescoço, encharcava-lhe o peito peludo e gerava um atrito viscoso entre a barriga protuberante e o cinto apertado. Sentia-se um porco carneado, assando aos poucos, pelo sol do dia e pela tempestade que morava dentro da noite do seu coração. De fato, não sabia o que o incomodava mais: O clima atroz de fora, ou o de dentro. Antes que se torturasse pensando nessa e em outras questões, Deus lhe fez um favor e abriu o sinal. Ele arrancou, mas o Uno morreu. Os carros buzinaram atrás. Reviveu o motor uma, duas, três vezes. Na quarta, ele afundou o pé e saiu cantando pneu, sem saber ao certo pra onde iria.

Duas esquinas a frente, uma blitz da Polícia Militar. “Puta que me pariu”, ele pensou. Ele não quitara o IPVA daquele ano. Preferiu pagar a pensão atrasada dos três filhos, afinal, já existia uma ordem de prisão em aberto contra ele. O guarda deu sinal, o mandou estacionar. Ele instalava antenas de TV a cabo, precisava do carro para trabalhar. Não poderia executar os serviços de ônibus ou de bicicleta. A vida é um boxeador mexicano te jogando nas cordas do ringue. Os dias, são cruzados de esquerda num oponente com queixo de vidro, uma luta desleal. Suspirou fundo e não quis saber: Engatou a marcha arranhada e atropelou os cones. Sumiu ricocheteando no asfalto quente feito um gângster. Uma máquina, um herói. Olhou no retrovisor da esquerda (o da direita não possuía espelho) e viu uma viatura dando partida. Um outro policial acenou com o braço, como se dissesse “deixa esse fodido pra lá, não vale a pena”. O militar desligou a viatura e desceu. Continuou com a operação de rotina. Então, uma lágrima caiu do seu olho direito. Caiu com o peso de um obeso mórbido rolando Everest abaixo. Ele sorriu e ligou o rádio. Sintonizou numa estação sertaneja. Firmou as mãos no volante, e entrou na avenida que dava para sua casa.

Enquanto guiava, atento ao trânsito, chegou à conclusão de que viver, era como dirigir um carro. Algumas pessoas dirigem carros luxuosos, e outros, como ele, carros velhos. Mas no fim das contas, todos são motoristas ou passageiros, e trafegam juntos, na mesma estrada. Durante o trajeto dos dias, todos se deparam com crateras no asfalto de seu caminho, neblina, quebra-molas, tempestades. Porém, devemos seguir atracados ao volante, até que a gasolina acabe ou até que espatifemos nossos miolos em alguma curva cruel.

Pensar tanto, o deixou triste. E quando ele ficava triste, bebia. Estacionou do outro lado da rua, no bar que havia na esquina de sua casa. Antes de descer, viu sua ex-mulher abraçada com um cara. Ela fumava feito uma maníaca, e escarrava risadas vulgares na atmosfera tóxica do bar. Entre um trago e outro, um gole no conhaque. Entre um gole e outro, um beijo e uma apalpada no pau do cara. O cara, por sua vez, apertava-lhe as tetas e batia com a mão aberta na sua cara. De dentro do carro, ele sentiu o coração ficar pequenininho. Abaixou a cabeça, olhou fixamente para o buraco no assoalho. Ainda não superara o divórcio. Da sentença do juiz até então, haviam passados oito meses. Ele sempre amou a ex-mulher, tanto é, que não concordou com o divórcio. Tentou de todas as maneiras dar jeito na situação, salvar sua família, ficar perto dos filhos. Falhou miseravelmente. Ela bebe nesse bar de propósito. Não é a primeira vez que ele a vê bêbada, com outro homem. A cada nova situação, ele sente que o seu coração vai se deformando, num emaranhado de cicatrizes. Cada cicatriz vai se amontoando em cima da outra, até que tudo o que se tem, é um pedaço disforme e duro de couro, batendo dentro do peito. Ergueu a cabeça e deu partida no Uno. Uma, duas, três, quatro vezes. Quando a fagulha enfim acendeu, ele arrancou; mas antes de arrancar, olhou de novo pra ex-mulher, que o olhara de volta, num sorriso de deboche.

Terminou o trajeto até a sua casa, desolado. Pensou onde estariam os filhos, já que a vagabunda da mãe deles estava bebendo e dando o cu pra qualquer um, no bar da esquina. De certa forma, ele não conseguia sentir raiva, uma vez que a tristeza que o devorava, não dava espaço para qualquer outro sentimento maciço. Para ele, o amor era apenas o desejo fictício dos seus delírios noturnos, onde ele fumava charutos cubanos e observava dezenas de virgens correrem nuas num campo aberto, disputando corrida com uma tropa de cavalos árabes. Ficou no carro, até anoitecer. Enfim desceu, abriu a porta de casa e procurou o interruptor para acender a luz. Apertou uma, duas, três, cinquenta vezes. A penumbra insistiu em ficar ali, queda. Então ele constatou que a luz havia sido cortada por falta de pagamento. Equilibrou-se no escuro, tropeçando nos poucos móveis que lhe restaram depois da partilha do divórcio. A ex-mulher levou quase tudo. Alguns minutos depois, chegou à cozinha. Derrubou alguns talheres, mas achou a caixa de fósforos. Acendeu um palito, que deu um ar de filme de terror caseiro ao ambiente. Olhou em volta e localizou a garrafa de vodca. Encarou o rótulo da garrafa e chorou em silêncio. A única mulher de sua vida era aquela gorda russa do rótulo da garrafa de seis reais. Bebeu um gole do bico mesmo. O fósforo queimou o seu dedo e apagou. A escuridão total veio sorrir de novo, abraçando-o num enlaço de ternura e compaixão. Sentiu-se como um maratonista com o pé quebrado, tentando se levantar perante a multidão de cem mil olhos e bocas. Sentiu-se como um poema de amor, que na maioria das vezes, é escrito cedo demais.

– Brendow H. Godoi